crónicas de uma guerra
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Hei-de querer morrer. Chegado o dia, um dia, sei que olharei em frente e saberei que, a partir desse momento, poderei morrer. É fácil, para alguém que espera viver mais 50 anos, dizer isto. É fácil ter esta certeza. A certeza de que hei-de querer morrer caminha a passo certo com a certeza de que nada levo daqui. A reencarnação demora 250 anos e falta-me tempo para acreditar em tal oportunidade. Esse é um combóio que não vou esperar na estação. Não levo nada desta vida. Nem me conforta a imagem de umas quantas virgens a aguardar por mim depois da morte. Depois de morrer serei cinzas espalhadas num qualquer ponto geográfico da minha vida. Um espaço que me tenha marcado e onde quererei deixar a minha marca. Quero essa certeza de um espaço que me eternize enquanto as cinzas voam empurradas por ventos que não me deixam ficar para trás. Acaba ali sem que ninguém saiba para onde vou. Saberão de onde parti. É quanto baste.
Hei-de querer morrer. De todas as certezas que me falham agarro-me a esta com a única força que lhes resiste. Hei-de querer morrer. Até esse dia sei que o único caminho que tenho é o da vida. Sei que nada mais posso fazer senão viver. Por isso, a certeza da morte, aceitar que um dia hei-de querer morrer. Ou talvez…
Quero poder querer morrer. Se alguma coisa pudesse pedir talvez fosse isso. Não quero uma morte inesperada. Por muito que tenhamos, nada mais vale que a vida e uma morte inesperada é o pior que pode acontecer. Quero poder querer morrer. Se esse dia chegar, chega com ele a certeza de que vivi e não fiquei a ver a vida a acontecer. A certeza de que nada deixei para fazer embora, não duvide, tudo ainda pudesse acontecer. Mesmo então, quero poder sonhar com um caminho em frente. O dos outros. A vida é uma guerra e o seu fim anunciado. Por isso luto para ganhar cada batalha até à capitulação final. A caminho do fim, sempre com novos começos.
tenho um pavor quase infantil da morte, como se tivesse um bicho papão debaixo da minha cama, as tuas palavras aliviaram um pouco o nó que tenho constantemente na garganta, fiquei retida nestas em particular “(…)a caminho do fim, sempre com novos começos(…)”, talvez seja esse o pensamento a seguir.. Beijinho, grande, gostei imenso deste post..