esta merda…

raro era o dia em que o Fred não me dizia, a propósito de um qualquer acontecimento mais estranho, que esta merda dava um post.
E dava, na maior parte das vezes, mas não deu e, provavelmente, nunca irá dar. Alguns ficaram e hão-de aparecer enquanto que os outros ficam perdidos, ou guardados, no submundo das memórias. São posts perdidos no tempo.
Nem todo o momento é eterno. Nem toda a eternidade se mede no presente.


visto a esta luz

Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade

Mário Cesariny

(Prémio Vida Literária Associação Portuguesa de Escritores/Caixa Geral de Depósitos)


SONETO XCV – Cien sonetos de amor


Quiénes se amaron como nosotros? Busquemos
las antiguas cenizas del corazón quemado
y allí que caigan uno por uno nuestros besos
hasta que resucite la flor deshabitada.

Amemos el amor que consumió su fruto
y descendió a la tierra con rostro y poderío:
tú y yo somos la luz que continúa,
su inquebrantable espiga delicada.

Al amor sepultado por tanto tiempo frío,
por nieve y primavera, por olvido y otoño,
acerquemos la luz de una nueva manzana,

de la frescura abierta por una nueva herida,
como el amor antiguo que camina en silencio
por una eternidad de bocas enterradas.

Quem se amou como nós dois? Busquemos
as antigas cinzas do coração queimado
e que um por um ali caiam nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.

Amemos o amor que consumiu seu fruto
e à terra baixou com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrável espiga delicada.

Do amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e Primavera, por olvido e Outono,
abeiremos a luz duma nova maçã,

da frescura entreaberta por uma nova feria,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.

Pablo Neruda