e sobre o que fica.
e sobre o que fica.
Foto: Berlim [TP]
Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e [...]
envelhecer não é um crime
mas a vergonha
de viver deliberadamente
uma vida
vazia
no meio de tantas
vidas deliberadamente
vazias
é.
(ler todo, aqui)
QUE ISTO SEJA ESQUECIDO
Que isto seja esquecido como uma flor, ou como
fogo de áureo gorjeio que ninguém já relembre…
É bom amigo, o tempo, que nos traz a velhice.
que isto seja esquecido e para todo o sempre.
E se alguém perguntar, dize - foi esquecido
há muito, muito tempo,
como uma flor, um fogo, uma surda pegada
numa neve esquecida [...]
Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio
de outro modo como poderia
a eternidade deslizar
Inger Christensen (n. 1935)
Dinamarca
Trad.: José Alberto Oliveira
Estudo
Através da janela
mando
a negra razão
falar com a
paisagem.
Ernst Meister (1911-1979)
Alemanha
Trad.: João Barrento
Tomou-me vossa vista soberana
Aonde tinha as armas mais à mão,
Por mostrar que quem busca defensão
Contra esses belos olhos, que se engana.
Por ficar da vitória mais ufana,
Deixou-me armar primeiro da razão;
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não vale defensa humana.
Mas porém, se vos tinha prometido
O vosso alto destino esta vitória,
Ser-vos tudo [...]
Pés descalços
pisam caminhos de areia
Pés descalços
pisam sujos caminhos de areia
Pés cansados negros e descalços
pisam tristes sujos caminhos de areia
Pés negros
pisam tristes caminhos da vida
Ilídio Rocha
Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.
Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
Nem nada!
Só tambor velho de gritar [...]
Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade
Faz, hoje, um ano que morreu.
Por favor, diz-me quem és tu, de novo?
(Quem és tu, de novo? - 1997)
Ali nada senão
O torvelinho de um feto:
Este mundo flutuante.
Kawabata Bósha (1900-1941)
Japão
Trad.: José Alberto Oliveira
(agora, a dois corpos e a quatro mãos)
se te visse
nua, como se
te visse
perdida sozinha
enlaçada nos braços
de uma estrada
sem destino
nunca houve destino
chamaria por ti
baixinho para não acordares
do sonho que te leva
nessa estrada
sem fim
há sempre um fim
se soubesse teu nome
guardaria-o eterno
Dentro da minha cabana Zulu
É uma colmeia
sem abelha alguma
que levanta as paredes
com tijolos dourados de mel.
Uma caverna cheia
do ruído da mó,
cabaças de leite azedo
cântaros de barro de cerveja espumosa
colchões de erva para dormir,
almofadas de madeira,
peles de cabra curtidas
presas por tiras de couro
a caibros de verga
enegrecidos pelo fumo
de bosta de vaca amassada
que arde debaixo
da panela de [...]
Sim, meu amor, está bem meu amor
Eu sei que tu tens razão
Dizia-te eu, às vezes, para acabar
Com a discussão…
E lá íamos vivendo,
Entre dois copos e um bom colchão,
Um futuro à nossa frente
E muito amor para mostrar a toda a gente.
Como era bem vivermos a [...]
Um dia destes vou ser uma faca qualquer
vou dilacerar a voz da razão
Asfixiá-la, arrancá-la do seu pedestral
Vê-la estremecer dentro do meu eu
(Poema Flipão - 1975)
se um dia te cruzares comigo na rua
e não souberes quem sou
não me perguntes as horas
o tempo para nós parou
não pares mas passa devagar
hoje amanheceu galhos, zéfiros
e dedos róseos na orla móvel
e Amanhã o sol há-de brilhar
Espirro cá para fora
a raiva de estar assim.
Simples? Sem ambiguidades?
Não me tenho.
Não estou em mim.
[outro dia]/[outro dia]
se um dia te cruzares comigo na rua
e não souberes quem sou
não me perguntes as horas
o tempo para nós parou
não há segundo que não passe sem ti
vou olhar e esperar
parar como o tempo parou
com tempo para te ver passar
[outro dia]
Eu não me afundo mais
Na vida que eu não quis
E vou tentar outro país
Já chega de ilusões
Estou farto de tradições
Que nos impedem de pensar
(Já chega de ilusões - 1975)
se um dia
começo assim porque não sei
nada
nunca soube
mas nem sempre comecei assim.
começámos ao contrário
e sempre soube
que o fim
esse fim o
nosso seria
para mim para ti
fácil demais. tão dificil
que teria de acabar
como um sonho
que todos acabam os sonhos
o nosso.
se um dia
acabo assim também
porque não sei
nada nunca soube
Katie Melua
Just Like Heaven
Anoiteceu
Acho que é tempo de pensar
Mas hoje estou tão fatigado
Outro cigarro
Outra imperial
agora já me sinto melhor
Ah, se eu pudesse arranjar o mundo
(…)
Porra, já está
Aguentei outro dia
(Monólogo de um cidadão frustrado - 1975)
Espeta-te com o garfo.
Corta-te com a faca.
Deita-te no prato.
Espera.
Alexandre O’Neill
O que há em mim é sobretudo cansaço
— Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida [...]
Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil
(Bairro do Amor - 1989)
És a construção do meu poema
És a vastidão da minha voz
És a ilusão, és minha pena
(Dimensão - 1973)
Enfrenta a verdade, sorri na derrota
(…)
Destrói as muralhas que encerram as esperança
(…)
Improvisa a despedida
Que a partida não demora
Como um homem só na vida
Frente ao tempo que o devora
(Poeta - 1973)
Aqui, neste cristal
Há um mundo de certezas
E as dúvidas ficam a ver-nos passar
(Deixem voar este sonho - 1975)
Agarras-te à hora em que o tempo não passou
Mergulhas nas cores que a loucura te emprestou
E quando te vês para lá do espelho
Encontras a solidão
(com uma viagem na palma da mão - 1975)
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