O Que Há

O que há em mim é sobretudo cansaço
— Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço…

Álvaro de Campos (9-10-1934)

Outros posts dificilmente relacionados

This entry was posted in Fernando Pessoa, Poesia and tagged . Bookmark the permalink. Post a comment or leave a trackback: Trackback URL.

4 Comments

  1. Posted 13.01.2006 at 14:49 | Permalink

    é muito bom. E consegue exprimir muito bem muitos dos dias em que assim nos sentimos… cansados!

  2. claudia suster
    Posted 03.05.2006 at 21:07 | Permalink

    Maravilhoso!!

    seu blog é mto legal, mas acho q está desatualizado né?=/
    muito bem escolhidas essas poesias

    beijos

  3. Chica
    Posted 10.05.2006 at 11:53 | Permalink

    hoje.. Obrigada… hoje …

  4. Posted 10.05.2006 at 11:57 | Permalink

    Sempre às ordens, Chica!

Post a Comment

Your email is never published nor shared.

  • Em Privado

    • tpinhal (at) hotmail (.) com
  • onde também escrevo

  • tag cloud