que isto seja esquecido

62 anos, 8 meses, 2 dias

Há algo que nunca é verdadeiramente importante até o ser: a vida. Nunca ninguém está, em situação normal, aos 35 anos, à espera de morrer. Normalmente, nestes tempos ainda que conturbados, o mais normal, passe o pleonasmo, é estarmos vivos. O menos normal é estarmos mortos, ainda menos normal é estarmos para morrer. ah, digo-o sem saber. A sério, eu que não sei nada disto, tenho de saber alguma coisa. Há sempre algo que sabemos melhor do que qualquer outra pessoa. Eu sei que pior que estar morto é estar a morrer sem outro destino. Há sempre outro destino, dirão os certos do costume. Desta vez não deu, dirão depois. Dizem-nos sempre. Ontem. Hoje. Amanhã talvez seja eu a dizer. Não somos senão de quem cá fica. Enquanto cá estivermos só interessa continuarmos. Por muito que custe, só interessa continuarmos. No entanto, continuamos sem sentido. Christopher Hitchens, alguém que poderia ser somente mais alguém, mas que nunca o foi, nasceu 27 anos antes de mim. No mesmo dia, para quem não tenha percebido, para se eu um dia me esquecer. Aos 62 anos morreu. 62 anos, 8 meses, 2 dias. Que faria eu se tivesse somente mais 27 anos de vida e morresse com 62 anos, 8 meses, 2 dias?

Eu sei.

e no entanto, saberia?