Pessoas normais, pensei. A beleza não surge na face das pessoas normais. É preciso alguém que, na escala, se encontre nooutlier para que o conceito surja e nos prenda. A repulsa não é beleza, mas também não surje em pessoas normais. Ali estava eu, pessoa normal, no meio de pessoas normais, a fazer o que as pessoas normais fazem no meio de pessoas normais: passar despercebido.
Não é fácil imaginar a perfeição, mas é impossível não a ver ao nos cruzarmos com ela. Para as pessoas normais olhamos, mas não as vemos. A perfeição vemos sem precisar de olhar, olhamos e deixamos de a ver. Eu deixei. Tropeçar nos degraus nesse momento fez-me abrir os olhos para a realidade. Temos de nos distanciar da beleza.
Há segregação total entre homens e mulheres em nove dos dez dias de meditação. Eu devo ser a razão para isso. A concentração é difícil, por vezes impossível, e manter os olhos fechados por mais de dois minutos facilmente se torna numa eternidade. O tempo esvai-se na eternidade e tudo perde o seu sentido. Abro os olhos. Somos cinquenta e só eu de olhos abertos. Atento no rosto de meditação de alguns e penso que deve ser esse o segredo do amor. Temos de gostar desse rosto, do rosto de meditação da outra pessoa. Só há um. Podemos ter vários sorrisos, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, …, podemos ter os mesmos vários olhares, rasgados, envergonhados, sinceros, alegres, …, mas só temos um rosto de meditação. Não há alegria, tristeza, frustração, medo ou paixão que afecte esse semblante. É o que de mais puro tem a nossa face. Ali era fácil e a ninguém precisava de pedir: da-me a tua melhor cara de meditação. A melhor, como se não soubesse.
Ela tinha o melhor rosto de meditação. Minto. Ela tinha o melhor corpo de meditação. Eu tinha dores. Facilmente aprendemos que a desconcentração não facilita uma hora em adhitthana, sem poder mexer pernas, mãos e sem abrir os olhos. Passei os dias sem lhe poder falar. Nove dias num esforço, muitas vezes inglório, para me concentrar. Uma eternidade a fazer planos. No décimo dia, pensava. Só isto. No décimo dia. Falar.
Ao nono dia ela não apareceu e no décimo ninguém lhe falou. Anicca. Tudo é impermanente.
Ao meu filho, um dia que o tenha, não hei-de oferecer um baby blog, mas sim um blog de babes e educá-lo para que se nunca vier a compreender os mistérios da beleza feminina os possa, pelo menos, suportar.
* lê-se ánitcha