2008: teatro
Acabo todos os anos com a sensação de que deveria ter ido mais ao teatro. Este ano, não sendo nisso uma excepção, termina com uma ligeira diferença: fui ao teatro.
Assim de repente, fui ver aquele que é considerado por muitos (procurem vocês) o melhor grupo teatral do mundo, Berliner Ensemble, fui, também em Almada, ver uma peça de Saramago numa altura em que, notava-se, o nevoeiro lhe causava alguma dificuldade, fui ver, e sofrer, com um monólogo do João Lagarto, vi um musical, o Cabaret, e vi também, há poucos dias (agora há mais) , a arte do crime. Não sei se me falha algum nem sei se, na altura própria, escrevi sobre cada um destes momentos. Se não o fiz, não o devo ter feito, deveria. Ainda assim, sem precisar de mais recordações, sem dúvidas também, o meu momento teatral do ano ocorreu com a peça de Saramago “Que farei com este livro”. O momento vale pela peça em si, mas a ele acrescem ainda as palavras do autor, subido ao palco, já depois do pano caído. Se muitas da ideias e palavras de Saramago nos separam, naquela sala tudo nos uniu. Ali estava um homem que não se quis sentar na cadeira que lhe trouxeram e que de pé, mais do que palavras, encontrou mais uma razão para existir. Eu não sei que razão encontrei, mas sei que depois da morte da maior parte de nós tudo permanece igual. A nossa morte, excepção a alguns poucos, gerará pouco mais do que uma fátua consternação. A vida continua para lá da morte dos outros. Nós, que ainda lhe vamos sobrevivendo, sabemos disso. É difícil prolongar a vida para lá da morte e, no entanto, naquele momento, naquele palco, naquela vida, tudo ainda se permitia. Até a eternidade.